Psiquê de Angela Lago (2010): a ilustração de um conto antigo e a correlação com suas possíveis fontes iconográficas
DOI:
https://doi.org/10.22398/2525-2828.1030120-142Palavras-chave:
Livro de Artista, Livro de Artista no Brasil, Gráfico Amador, Movimento Concreto e NeoconcretoResumo
O artigo debruça-se sobre a obra Psiquê, ilustração infantil de Angela Lago publicada em 2010, baseada no conto de Apuleio, O asno de ouro. Partindo da análise da premiada obra de Lago, a pesquisa remonta a uma importante artista para a ilustração infantil brasileira. Revisita as fontes literárias do conto antigo e, como diferencial de outras produções acerca da mesma obra, tece relações entre as imagens de Lago e suas possíveis fontes iconográficas, dentre elas obras de artistas membros da Irmandade Pré-Rafaelita. A argumentação dá-se à luz da concepção de “imagem” do historiador da arte francês Georges Didi-Huberman. Em termos formais, a imaginação dos leitores é estimulada pela atmosfera de imagens cujos contornos são borrados, com fortes contrastes entre o claro e o escuro e de personagens apresentados por meio de sombras e silhuetas. Constatou-se que as ilustrações citam a literatura de Ofélia, de Hamlet e do mito de Narciso e atualizam o conto e sua tradição iconográfica de várias maneiras: subvertem a iconografia de Eros, fazendo com que ele também assuma asas de borboleta, comumente atribuídas a Psiquê; inclui as flores de narciso à medida que os protagonistas se aproximam, flores recorrentes em obras de arte canônicas sobre as literaturas citadas; entre outras conexões. Por fim, observa-se que Lago atualiza o conto com a irrupção de imagens fotográficas de outros tempos, algumas relativas à guerra e ao Holocausto judeu, fazendo com que o leitor conecte memórias do real em uma narrativa até então mitológica.
Referências
ANGELA LAGO. In: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE ARTE E CULTURA BRASILEIRA. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6168/angela-lago. Acesso em: jun. 2024.
ALEXANDRE, Charles. Lexique grec-français a l’usage des commençants. Paris: Hachette, 1843.
APULEIO. Eros e Psiquê. Tradução de Ferreira Gullar. São Paulo: FTD, 2009.
APULEIO. O asno de ouro. Tradução de Ruth Guimarães. São Paulo: 34, 2019.
BENZONI, Giovanni Maria. Amor e Psiquê, 1845. Escultura em mármore, 163 × 102 × 60 cm. Modern Art Gallery, Milão. Disponível em: https://www.wikimedia.org. Acesso em: 14 out. 2025.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. São Paulo: Paz & Terra, 2009. BOUGUEREAU, William-Adolphe. O rapto de Psiquê, 1895. Tinta a óleo, 209 × 120 cm. Coleção privada. Disponível em: https://www.meisterdrucke.pt. Acesso em: 14 out. 2025.
BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1991. v. 1.
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia grega. Petrópolis: Vozes, 1999. v. 2.
BRUM, Liniane Haag. Psiquê, de Angela Lago: quando a imagem é palavra. Literartes, n. 3, p. 51-67, 2014. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9826.literartes.2014.89202
CADEMARTORI, Ligia. Apresentação. In: APULEIO. Eros e psiquê. Tradução de Ferreira Gullar. São Paulo: FTD, 2009. p. 6-9.
CARMELINGO, Tamires Henrique Lacerda. Palavra e imagem: o livro ressignificado em Psiquê, de Ângela Lago. 2015. 96f. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2015.
COMMELIN, P. Mitologia grega e romana. São Paulo: Martins Fontes, 2011. DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: 34, 2012a.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. PÓS: Revista do Programa de Pós- graduação em Artes da Escola de Belas Artes da UFMG, Belo Horizonte, v. 2, n. 4, p. 206-219, 2012b. https://doi.org/10.35699/2238-2046..15454
DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem queima. Curitiba: Medusa, 2018.
DUARTE, Adriane da Silva. Apresentação. In: APULEIO. O asno de ouro. São Paulo: 34, 2019. p. 7-22.
GIBSON, John. The Marriage of Psyche and Celestial Love, 1845. Relevo de gesso, 1.030 mm × 1.420 mm × 150 mm. Royal Academy of Arts. Disponível em: https://www.royalacademy.org.uk. Acesso em: 14 out. 2025.
HESÍODO. Teogonia. Tradução de Christan Werner. São Paulo: Hedra, 2013.
HOMERO. Ilíada. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. HALL, James. Dictionary of subjects & symbols in art. Nova York: Icon, 1974.
LAGO, Angela. Cena de rua. Minas Gerais: RHJ, 1994.
LAGO, Angela. A festa no céu. São Paulo: Melhoramentos, 2000.
LAGO, Angela. Psiquê. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
LEWIS, Thomas. Os quatro amores. São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2017.
LINDEN, Sophie van Der. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
MEMORIAL AND MUSEUM BIRKENAU/AUSCHWITZ. Historical collection. Memorial and Museum Birkenau/Auschwitz. Disponível em: https://www.auschwitz.org/en/museum/historical-collection/ Acesso em: 3 ago. 2024.
MILLAIS, John Everett. Ofélia, 1851–1852. Tinta a óleo, 76,2 × 111,8 cm. Tate Britain. Disponível em: https://www.tate.org.uk/art/artworks/millais-ophelia-n01506. Acesso em: 14 out. 2025.
MUSEU DEL PRADO. Prometeu e Atenas criam o primeiro homem, c. 180–190 d.C. Mármore branco. Madri: Museu do Prado. Disponível em: https://www.museodelprado.es. Acesso em: 14 out. 2025.
NEUMANN, Erich. Amor e psiquê: uma contribuição para o desenvolvimento da psique feminina. São Paulo: Cultrix, 1990.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução de Domingos Lucas Dias. São Paulo: 34, 2017.
ROYAL COLLECTION TRUST. Cupid and Psyche. 1841. Royal Collection Trust. Disponível em: https://www.rct.uk/collection/41062/cupid-and-psyche. Acesso em: jun. 2024.
SEATON, Beverly. The language of flowers: a history. Charlottesville: University Press of Virginia, 1995.
SESC SANTO ANDRÉ. Angela Lago em linhas de histórias: o livro ilustrado em sete autores. YouTube, 2017. Disponível em: www.youtube.com/watch?v=4r4aiIXLYiU&t=6s. Acesso em: jun. 2024.
SEVERINO, Carlos Mesquita. Narciso nas Metamorfoses de Ovídio e na pintura de J. W. Waterhouse. Forma breve Revista de Literatura, Aveiro, v. 1, n. 17, p. 117-136, 2021. https://doi.org/10.34624/ FB.V0I17.27106
STANHOPE, John Roddam Spencer. Caronte e Psique, 1883. Tinta a óleo, 138,4 × 95,2 cm. Coleção particular: Roy Miles Fine Paintings. Disponível em: https://www.meisterdrucke.pt. Acesso em: 14 out. 2025.
TATE GALLERY. Were the Pre-Raphaelites Britain’s first modern artists? Tate Gallery. Disponível em: https://www.tate.org.uk/art/art-terms/p/pre-raphaelite/were-pre-raphaelites-britains-first-modern- artists. Acesso em: 24 set. 2025.
VALENZUELA, Sandra Trabucco. Psiquê, de Angela Lago: diálogos intertextuais do verbal e do não verbal. Caderno Seminal Digital, v. 23, n. 23, p. 150-178, jan.-jun. 2015. https://doi.org/10.12957/ cadsem.2015.14334
VON FRANZ, Marie-Louise. O asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana. Petrópolis: Vozes, 2014.
WATERHOUSE, John William. Narciso, 1912. Tinta a óleo, 1.092 mm × 1.892 mm. Localização não informada. Disponível em: https://www.johnwilliamwaterhouse.net. Acesso em: 14 out. 2025a.
WATERHOUSE, John William. Ofélia, 1889. Tinta a óleo, 124,4 × 73,6 cm. Localização não informada. Disponível em: https://www.johnwilliamwaterhouse.net. Acesso em: 14 out. 2025b.
WATERHOUSE, John William. Ofélia, 1894. Tinta a óleo, 124,4 × 73,6 cm. Aberdeen Art Gallery and Museums. Disponível em: https://www.johnwilliamwaterhouse.net. Acesso em: 14 out. 2025c.
WATERHOUSE, John William. Ofélia, 1910. Tinta a óleo, 119 × 71 cm. Coleção particular: Andrew Lloyd Webber Collection. Disponível em: https://www.johnwilliamwaterhouse.net. Acesso em: 14 out. 2025d.
WATERHOUSE, John William. Psiquê entrando no jardim do cupido, 1903. Tinta a óleo, 143 × 105 cm. Harris Museum and Art Gallery. Disponível em: https://www.johnwilliamwaterhouse.net. Acesso em: 14 out. 2025e.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Isadora Cunha Caldas, Luana Maribele Wedekin

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.
Os direitos autorais para artigos publicados nesta revista são do autor, com direitos de primeira publicação para a revista.
Ressaltamos que a responsabilidade dos artigos é de exclusividade do(s) autor(es) e não reflete, necessariamente, a opinião dos Editores ou da ESPM.





